Os falsos Decretos de Isidoro

Publicado: 17 de julho de 2010 por Rafasoftwares em História da Igreja

Este texto visa responder ao apologista protestante William Webster pelo seu texto publicado em Christian Truth. Em um debate com o apologista protestante James White, do ministério Alfa e Ômega, fui direcionado a este site quando o mesmo fez referência sobre um documento conhecido com “Doação de Constantino” (Donatio Constantini ) também conhecido como “Decretos de Pseudo-Isidoro” ou simplesmente “Falsos Decretos”. Estes foram supostamente dados pelo imperador Constantino ao Papa Silvestre I (314-335). Sem dúvida alguma, o documento é uma falsificação, tendo sido escrito entre 750 e 850 d.C.

O fato deste documento ser falso não é debatido entre os católicos. O que tanto Webster quanto White dizem a seu respeito é que a doutrina do papado foi estabelecida tendo por base este falso documento. Não pode ser mais falsa esta acusação. Qualquer um que concorde com esta informação está grosseiramente mal-informado ou está sendo intensamente desonesto na sua representação sobre o papado.

Para que os clamores de Webster e White sejam verdadeiros, tanto o papado como as evidências do primado petrino deveriam aparecer entre os anos 750-850 d.C. Desta forma, o trabalho dos apologistas católicos está em demonstrar que tais ensinos são bem mais anteriores. Demonstraremos que esta evidência de fato existe e desacredita qualquer pessoa que mantenha a idéia de que os Falsos Decretos são a base do papado.

TESTEMUNHO DAS ESCRITURAS

Mt 16,18: “E te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e os portões do inferno não prevalecerão contra ela”. Aqui vemos Jesus concedendo a Pedro a fundação da Igreja. Certamente, no aramaico, que Jesus claramente falava quando falava aos apóstolos e é a língua original do livro de Mateus, não há distinção entre as palavras “Pedro” (Kepha) e “pedra” (Kepha). Consequentemente, se analisarmos bem a língua original (ao invés de traduzir para o grego ou para o português), o mesmo versículo ficaria assim: “Tu és Kepha, e sobre esta Kepha edificarei a minha Igreja”. Somente este versículo é suficiente para o que possui fé, mas para os nossos opositores protestantes, que requerem mais, continuaremos.

TESTEMUNHO DOS PAIS DA IGREJA

Em 517 os bispos orientais consentiram e assinaram a fórmula do Papa Hormisdas, que afirma em parte: “a primeira condição da salvação é manter a norma da verdadeira fé e de modo algum se desviar da doutrina dos Pais. Desta forma, é impossível que as palavras ditas por nosso Senhor ‘ tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja ? não seja confirmada. E sua verdade tem sido provada pelo curso da história, pois na visão apostólica a religião católica sempre se permaneceu imaculada'” (citado em “This Rock”, outubro 1998).

Tertuliano (220 d.C): “que o poder de ligar e desligar foi a vós concedido, isto é, a qualquer igreja ligada a Pedro? Que tipo de homem és para subverter e alterar o que foi a vontade manifestada do Senhor quando o confiriu pessoalmente a Pedro? Sob ti, disse Ele, edificarei a minha Igreja, e a ti darei as chaves, e não à Igreja; e o que tu ligares ou desligares e não o que eles ligarem ou desligarem” (Modesty, citado em Jurgens 387).

São Clemente de Alexandria (190-210 d.C): “‘Nem o reino dos céus pertence aos dormentes e aos preguiçosos; certamente seria tomado à força’ Ouvindo estas palavras o bem-aventurado Pedro, o escolhido, o pre-eminente, o primeiro entre os discípulos, o único a quem o próprio Senhor pediu que se pagasse o tributo, rapidamente compreendeu seu significado” (citado em “Que rico será salvo?”, Jurgens 436).

Orígens (226-232 et postea): “Pedro, sob o qual está edificada a Igreja, contra o qual os portões do inferno não prevalecerão, nos deixou somente uma epístoloa de genuidade conhecida. Nós aceitamos a segunda, porém ainda é duvidosa” (Comentários a João, citado em Jurgens 479a) . Este é um comentário sobre a epístola de Pedro, que mais tarde fora confimada genuína. Isto desacredita toda a teoria da Sola Scriptura, pois vemos que após duzentos anos depois de Cristo a canonicidade dos livros da Sagrada Escritura ainda era debatida.

Orígens (244 d.C): (se referindo a Pedro) “Observe a grande fundação da Igreja. A mais sólida das rochas, sob o qual Cristo a edificou. E o que o Senhor disse a ele? “homem de pouca fé” disse, “porque duvidas?” (homilia sobre o Êxodo, citado em Jurgens 489).

São Cipriano de Cartago (251 d.C): “O Senhor diz a Pedro: ‘Eu te declaro que és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus…’ O Senhor edifica sua Igreja sobre um só, embora conceda igual poder a todos os apóstolos depois de sua ressurreição, dizendo: ‘assim como o Pai me enviou, eu vos envio. Recebei o Espírito Santo, se perdoardes os pecados de alguém, ser-lhes-ão perdoados, se os retiverdes, ser-lhes-ão retidos’. No entanto para manifestar a unidade, dispões por sua autoridade a orgiem desta mesma unidade partindo de um só. Sem dúvida, os demais apóstolos eram, como Pedro, dotados de igual participação na honra e no poder; mas o princípio parte da unidade para que se demonstre ser a única Igreja de Cristo…Julga conservar a fé quem não conserva esta unidade da Igreja? Confia estar na Igreja quem se opõe e resiste à Igreja? Confia estar na Igreja quem abandona a cátedra de Pedro sobre a qual está fundada a Igreja?” (Sobre a Unidade da Igreja).

Santo Efrém (306-373 d.C): “Simão, meu seguidor, eu te fiz a fundação de toda a Igreja. Eu te chamei Pedro, porque em ti suportarão todos os fundamentos. Tu serás o inspetor de todos que edificarem a igreja para mim. Se edificarem o que for falso, tu, o fundamento, os condenará. Tu serás a principal fonte pela qual passarão meus ensinamentos, tu és o chefe dos meus discípulos. Por ti darei de beber a todos as pessoas. Ti escolhi para ser o primeiro de minha instituição, e dessa forma, como herdeiro, serás o executor de minhas riquezas. Te darei as chaves do meu Reino. Veja, te dei autoridade sobre todas as minhas ovelhas” (Homilias, citado em Jurgens 706).

Santo Agostinho (391-430 d.C): “Antes de sua paixão, o Senhor Jesus Cristo, como sabeis, reuniu seus discípulos, chamados apóstolos. Entre os apóstolos em quase todos os momentos Pedro obteve o mérito de representar toda a Igreja. Com o fim de representar toda a Igreja, como viria a fazer, ele mereceu escutar: ‘te darei as chaves do reino dos céus'” (Sermões, citado em Jurgens 1526).

Muito bem, existem ainda várias citações, mas as acima estão repletas de provas mais do que necessárias para demonstrar que a autoridade de Pedro e dos apóstolos existia muito antes da Doação de Constantino. Outro ponto a se colocar aqui é que se o papado ainda não fosse reconhecido como autoridade, esta falsificação seria fortemente rejeitada e ridicularizada. O fato de existirem tamanhas referências à autoridade de Pedro demonstra que ele possui credibilidade muito antes do Papa Nicolau I.

Mas porque o Falso Decreto foi escrito? Teria sido para reforçar o papado? Não, muito pelo contrário, foi para “manter os bispos locais contra seus metropolitanos e outras autoridades, para assegurar impunidade absoluta e a exclusão de qualquer influência do poder secular” (Dollinger, citado em “This Rock”, 22 de outubro 1998).

Tradução: Rondinelly Ribeiro.

Fonte : Veritatis Splendor

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